terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Vencedor - Capítulo 4

O Vencedor 

Capítulo 4 

Eu, sinceramente, tinha conseguido esquece-lo. Sério. Parei pra pensar e me dei conta de que desde que tinha chegado ao caixa do mercado até o segundo em que o discerni, eu não tinha pensando em Maurício. Nem nele, nem em toda a tristeza que me causava. Mas lá estava ele como se soubesse, como se, tendo podido prever o suspiro de paz da minha consciência, tivesse resolvido vir, em pessoa, cuidar de não me deixar aproveitá-lo.

Empurrei o carrinho, que não estava pesado, por uma distância, que não era longa, e me senti como em via crucis, não. Alguém como eu não merece um exemplo tão justo. Sei lá, senti como quando a gente anda num desses brinquedos infernais de parque, desses que despencam de muito alto em três segundos que mais parecem a eternidade.

Eu sabia que meu olhar lhe queimava a nuca, tinha certeza que já me tinha notado, mas ele não virou para trás. Antes, permaneceu maurício, altivo, soberbo, achando que era a pintura a óleo de algum rei muito glorioso.

Parei o carrinho ao lado do carro e não falei nada. Fiquei fingindo me entreter com as sacolas, chacoalhando-as, fazendo bastante barulho, pra dar a ele a escusa que precisava pra olhar. Até nisso eu sabia que tinha que servi-lo. Tinha sempre de construir a escada pra que ele descesse até mim, estender o tapete.

O vi se virar pelo canto do olho. A mala do carro se abriu. Tomei umas sacolas e deixei outras, queria ver o que ele faria. Se as pegasse, mostraria que não era de todo bicho, que, pelo menos, polidez tinha. Se não pegasse, no entanto, a minha humilhação seria ainda maior com ele em pé me vendo dar duas viagens, imóvel. Para o meu susto, ele pegou as sacolas que restaram, mas as jogou meio que de qualquer modo no porta-malas enquanto eu arrumava as primeiras.

Quando terminei de ajeita-las todas, Maurício já estava no carro. Bati a porta da mala e hesitei por um momento. Eu não tinha certeza se era pra ir com ele. Se era pra entrar em seu carro e ir jogando conversa fora até a casa. Não sei se ele entendeu minha incerteza, mas resolvi tomar o fato de que ele não deu a partida no carro como um ato de fala de que estava me esperando entrar. 

Me dirigir à porta do carona e ela destravou. Entrei, travei o cinto e fiquei vermelho. Eu sabia que estava. Sentia o rosto ferver e escutaria o barulho de sua ebulição a qualquer minuto, mas ele ligou o carro e começamos a andar. O ar frio vinha bem no meu rosto. Fechei meus olhos. Eu quase não conseguia me sustentar ali dentro com ele. E ainda nem tínhamos saído do mercado.

“Por que comer sua torrada é o de menos?” Como de costume, estremeci à trovoada de sua voz. Ele, também como de costume, falou comigo sem me olhar, olhava pro trânsito, mas nem precisava dessa desculpa.

Fiquei calado. Não consegui responder. Na verdade, achei que eu não tinha o que responder. O que eu ia dizer? O que eu tinha pra cobrar dele? O que era meu pra reclamar? Que ele não se descobria apaixonado por mim e não me vinha beijar a boca? Que razão eu tinha em exigir dele alguma coisa? Não tinha direito algum em responder. Não tinha nem o direito de ter dito aquilo. Fiquei quieto. Tudo o que eu pensava em dizer minha voz se recusava a vir veicular. Ficou lá trancada. Se rebelando a cada nova tentativa.

Ele devia estar me odiando. Se corroendo todo por dentro naquele coração orgulhoso. Não perguntaria uma segunda vez e nem se mostraria contrariado ou interessado no meu silêncio. Foi, então, que parei de tentar achar o que dizer. Não diria nada. Que ele lidasse um pouco com a contrariedade. Estava muito acostumado a me ouvir sempre sim. Me vi um pouco forte naquela raiva momentânea e me fiz silencioso o resto do caminho, que, graças a Deus, era curto.

Mal chegamos, tirei o cinto e saí do carro. Eu sabia que ia me arrepender daquela força toda tão logo ele sumisse da minha vista de novo, mas não podia negar que estava me agradando daquela sobrancelha dele frisada. Esperei que ele abrisse a mala e peguei todas as sacolas de uma vez e fui em direção à entrada da cozinha sem nem olhar pra trás. O que tinha me dado, eu não sei. Sei que voltou minutos depois quando ele apareceu na cozinha com uma sacola.

“Ficou no carro.” Disse entregando a minha mãe.

Ele ficou parado, meio leso, um instante, até que resolveu beber água.

“Brigada, tá, Maurício.” Minha mãe veio dizendo.

“Por quê?” A pergunta me escapou antes que eu pudesse contê-la.

“Por ter ido buscar você com as compras.” Ela respondeu. “Seu João ia, mas Sônia precisou sair rápido. Eu ia te ligar pra mandar você pegar um táxi, mas ele se ofereceu pra ir. Brigada, tá, meu filho.” Ela disse pra ele que ficou roxo de repente, colocou o copo com um baque na pia, fingiu sorrir pra ela e desapareceu.

Eu não podia acreditar! Não tinha sido pra economizar o dinheiro do táxi. Aquela corrida, e acho que qualquer outra, era mixaria pra eles. Ele tinha ido me fazer aquela pergunta. Posso até imaginar a batalha que teve de travar dentro de si pra me perguntar num tom tão ameno. Como posso imaginar o ódio que devia estar corrompendo suas veias porque tinha ficado sem resposta. Ainda mais que tinha sido desmascarado bem diante dos meus olhos.

Eu estava até gostando daquilo. Dava certa euforia me sentir com alguma estratégia. Eu sabia que duraria pouco, porém. Ia chegar uma hora em que ele latiria mais alto e eu ficaria no canto, de novo, acuado e pronto pra ceder-lhe o tanto que quisesse. O bom de tudo foi que, pela primeira vez em muito tempo, parecia que Maurício não era totalmente indiferente a mim. Pelo menos, incomodado ele estava.

O jantar era uma invenção de Sônia. Ela queria reintroduzir o filho à juventude da alta roda carioca. Chamou uns três filhos de amigos dela, com quem Maurício estivera algumas vezes e alguns, só os que verdadeiramente importavam, dos colegas da antiga turma de escola dele. Turma esta que virou minha, logo no ano seguinte à partida de Maurício. O conselho de classe achou de me pular a sexta série (ou sétimo ano).

Todo mundo naquela sala sabia bem quem eu era e isso sempre foi o suficiente pra não chegarem muito perto de mim. Numa escola de ricos, o filho de uma empregada cuja mensalidade era paga pela patroa da mãe não é, exatamente, muito atraente para amizades. Ainda que houvesse quem estivesse acima disso, havia o fato de eu ser considerado esquisito, muito triste e gay demais pra eles.  

Estavam no drink aperitivo quando minha mãe voltou à cozinha dizendo que eu estava convidado, que o pessoal da escola perguntou por mim e Sônia tinha dito que era pra eu me juntar a eles.

Os cretinos tinham feito questão de fingir que eu não existia, exceto quando queriam rir de mim, durante os longos anos em que fui obrigado a estar com eles e perguntavam sobre mim e me queriam à mesa? Pra me devorar, talvez. Que se explodissem! Sério! Mas não tinha como eu ficar escondido na barra do uniforme que minha mãe usava em ocasiões especiais. Eu tinha que ir até lá, porém, rápido, já tinha decidido que não ia ter de aguentar.

“Grande Abel!” Veio um dos que mais me zombavam. Não muito tempo atrás, havia só uns dois meses. Na verdade, não soube nem o que ele estava fazendo ali. Devia ter se esquecido da surra que levou no pátio quando Maurício descobriu que era dele o pé, deixado de propósito, que me fez rolar um lance de escada e levar dois pontos no supercílio.

“Boa noite.” Me limitei a dizer sério e até altivo. Não podia escorraçá-lo porque ele era um convidado e eu, vocês já sabem. Mas nada podia me obrigar a fazer média com quem tanto já tinha me humilhado. Só havia um que podia fazê-lo o quanto bem quisesse e agora, ele estava muito envolvido em uma conversa com Giulia, filha de uma amiga de Sônia, quase tão rica quanto eles. Mas ele perdeu a atenção dela por um tempo.

“Oi, Abel!” Giulia chegou a levantar e veio me abraçar. “Quanto tempo! Você vai jantar com a gente, né?”

“É, Abel. Veste uma roupa e vem.” Disse Sônia sem se importar em olhar pra mim duas vezes.

“Adoraria, mas não posso. Marquei de sair com uns amigos.” Falei tudo num fôlego só. E, aí, senti os olhos de Maurício queimando o meu rosto.

“Como se tivesse algum.” Um dos meninos da escola abafou num pigarro e, agora, era o rosto dele que o olhos de Maurício queimavam.

“Ah, deixa de disso.” Sônia desmereceu com um gesto de mão. “É só desmarcar. Inventa uma desculpa. Você está no Rio de Janeiro. Pelo amor de Deus.” E deu uma boa golada no whisky.

“Não posso. É aniversário de um deles. Eu tava só terminando de ajudar minha mãe e já ia me arrumar.”

“Um chato você.” Sua voz já começava a embargar.

Eu não fazia nem ideia de pra onde eu ia. Só me deixei seguir minha mentira, automaticamente, como se fosse verdade. Tomei banho, me arrumei, peguei um dinheiro na minha gaveta e saí de casa pela cozinha mesmo.

“Pra onde você vai?” Tinha esquecido completamente da minha mãe.

“Eu não queria jantar com eles e inventei que ia sair. Agora, tenho que ir.”

“Pra onde uma hora dessas, meus Deus?”

“Ai, mãe! Me deixa. Só vou ao shopping. Nada demais.”

Sair daquela casa foi, de novo, como respirar ar fresco, saindo de uma multidão que acabou de ser bombardeada com pimenta. Parecia que eu tinha abandonado todo o peso das minhas costas no portão. Sabia que voltaria e pararia ali para pegá-lo de volta assim que retornasse, mas, por ora, estava livre. Pela primeira vez na vida, me vi inteiramente livre, mesmo que por um período curto.

Não tinha compromisso, horário ou destino. Podia ir para onde quisesse, fazer o que eu bem entendesse. Bem, nem tanto. Eu só tinha dezessete anos e o dinheiro que eu tinha pego não era lá essas coisas.

Eu podia até não saber pra onde ia, mas sabia o que queria fazer: BEBER! Ia ficar bêbado e esquecer de mim.

Com alguma sorte me esquecia também de Maurício.  

Continua...



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O Vencedor - Capítulo 3

O Vencedor 

Capítulo 3 


A princípio, senti grande incômodo com aquilo. Eu não era empregado dele, minha mãe que era, e ele sabia muito bem disso. Por outro lado, nunca o tinha visto falando assim com minha mãe ou qualquer dos outros empregados da casa. Parecia que usava comando de voz comigo. Ele dispensava certas cerimônias com que os patrões falam com seus empregados. Isso só podia indicar que eu era mais que um empregado pra ele, não muito mais, porém. Era um tipo de vassalo cuja relação com seu suserano era estabelecida em algo muito mais forte que meramente dinheiro.

“Tô com fome.” E eu com isso? Eu tinha tudo a ver com isso. Simplesmente, sentia como se atender às vontades de Maurício fosse como minha obrigação. Como se fosse o motivo de eu ter nascido. Nunca tinha sido diferente. Fui educado a ceder, a deixar por menos, a não reclamar sempre que o assunto era Maurício. Morando de favor na casa dele, ele sempre tinha razão, sua vontade sempre prevalecia.

Não posso dizer que eu não me senti até feliz quando fui à cozinha, onde ele já não estava mais, e comecei a preparar um sanduíche pra ele. Eu o veria de novo, assim que terminasse de montar seu lanche. Ia subir as escadas e entrar em seu quarto e não conseguia parar de criar esperanças de que sua “fome” era na verdade uma desculpa para me chamar ao seu quarto já que ele era orgulhoso demais pra fazer isso.

Pé ante pé, tremendo na escada, cuidando pra não entornar o suco de graviola, que até onde me lembro era seu favorito, e o corpo já quente de desejo mais uma vez.

Maurício estava no banheiro de seu quarto, mijando. Eu podia ouvir o barulho pesado do mijo batendo na água. Seu pau estava nu, logo ali ao lado. Se tinha deixado a porta aberta de propósito eu nunca saberia. Eu queria ver aquele pau, mais que ver, queria entrar naquele banheiro e cair de joelhos diante dele e engoli-lo para que Maurício tivesse prazer, sentir que gosto tinha seu mijo, mas não fiz isso. Com toda a força que pude exercer sobre mim mesmo não fui até lá. Fiquei em pé, imóvel, com a bandeja nas mãos.

“Trouxe um sanduíche com suco de graviola.” Eu disse tomando cuidado pra não gaguejar quando ele saiu do banheiro, usando não mais que um short de nylon branco. O cabelo estava molhado.

“Deixa ali em cima. Depois eu como.” Ele deitou e se cobriu.

“Tá.” Respondi a passos lentos em direção à porta, uma vez fora, já era. Enquanto estivesse ali dentro tinha ao menos esperança.

“Apaga a luz quando sair.”

Eu apaguei, puxei a porta e saí. Tinha acabado. Não imaginava Maurício abrindo a porta e me chamando de volta, muito menos descendo a escada ou indo até meu quarto. Fechei minha porta e soquei meu colchão querendo socar minha própria cara, mas não poderia estraga-la ou destruiria qualquer das mais remotas chances que eu pudesse ter com Maurício.

Soquei ainda mais a cama ao me dar conta do que me impedia de me socar. Como eu podia? Meu dia era Maurício, minha noite, os pensamentos, minha ações, tudo Maurício o tempo todo. Só tinha graça se tivesse ele, se ele existisse. Uma vida a esperar por ele, esperar que ele resolvesse estar a fim de se divertir com meu serviço. 

Mas devia andar saciado, ora. Lindo e rico como era, portas e pernas deviam estar sempre abertas pra ele. Podendo arcar com os melhores produtos, não ia mesmo precisar descer ao filho da doméstica, o que estava ali de bandeja, entregue fácil e desesperado por servir. Não ia ter graça nenhuma.

Eu estava fora pra Maurício. Não era parte do menu dos restaurantes que ele podia frequentar. Podia ter muito mais do que eu, gente muito melhor. Na savana, eu não era presa que ele olhasse. Um animal muito grande, não come animaizinhos. A não ser talvez em dias de muita fome. Maurício era leão grande e forte, comia do que bem quisesse. A fome dele era matéria que eu não alcançava, como na Carta de Amor.

“Abel.”

“Abel.”

Ao ver minha mãe entendi que já devia ser de manhã.

“Meu filho, o que tá acontecendo que você tá acordando tão tarde?”

“Eu tô vendo uma série nova que não me deixa dormir.” Sorri falso.

“Vem cá, o ano já virou. Você não vai ficar nessa de série a vida toda, vai?”

“Ai, mãe, tecnicamente, ainda tô de férias.”

“Quero ver até quando vão essas férias.” Mal levantei e ela já tinha forrado a minha cama daquele jeito de hotel que ela fazia em menos de cinco minutos. “Vai ter um jantar aí hoje e eu preciso          que você vá no mercado.”

“Por que a Sônia não vai ou manda o filho dela? Eu não sou empregado deles.” Normalmente, não demoro a perceber quando acordo de mau humor.

“Porque a Sônia mandou a empregada dela ir e a empregada dela é sua mãe e está te pedindo esse favor. Anda. Fiz torrada doce pra você.”

Parecia que minha mãe sabia que eu precisava daquilo. Começar o dia sentindo crosta de açúcar quebrando em meus dentes era coisa que me faria bem. E não faria mal sair daquela casa um pouco. Parar de imaginar possibilidades de aparição de Maurício. Sabe? Ter, na cabeça, um estúdio hollywoodiano de produções milhares a cada novo segundo... Maurício descia para tomar água, para passar a caminho da rua, pra me chamar pra fazer alguma coisa juntos... Pelo menos no mercado eu ia poder respirar disso.

Escovei meus dentes no nosso banheiro. Tínhamos um banheiro. Minha mãe e eu, e todos os outros empregados. Era uma areazinha a partir de um corredor que saía da cozinha. Havia ali três quartos. Os nossos e um outro que servia ao empregado que, por ventura, precisasse dormir na casa. Geralmente era Seu João, o motorista, quem ficava.

Quando cheguei à cozinha minha mãe estava passando manteiga numa fatia de pão de forma. Ué?! Já não tinha feito? Então vi Maurício, ele mesmo, sentado à mesa terminando uma torrada doce.

“Tô fazedo outra, Abel.” Minha mãe disse ligeira. “Maurício achou que não tinha dono.” E riu.

“Foi mal.” Ele olhou dentro dos meus olhos e crispou a boca pra mostrar arrependimento.

“Isso é o de menos.” Sustentei o olhar dele e não me reconheci, mas logo virei pra minha mãe: “Enquanto isso, eu vou me ajeitar pra ir no mercado, então.” E voltei pro meu quarto.

Me senti cansado de Maurício. Empanzinado do jeito dele. Cínico. Sempre superior... Mas me arrependi. Maurício estava sentando na cozinha e eu, ao invés de sentar e ficar ao lado de sua existência, me fiz de durão e indiferente. Que burro! Me troquei o mais rápido que pude. Ajeitei os cabelos com a mão e corri para a cozinha. Só minha mãe estava lá.

“Quis dar uma de forte, agora, aguenta.” Lembro de ter pensado. Aliás era o que eu sempre pensava toda vez em que tentava agir de forma a me fazer de indiferente a Maurício. Sempre me arrependia disso. Mesmo que soubesse que se tivesse feito diferente, que se tivesse permanecido na cozinha, por exemplo, nada teria mudado. Mas tinha alguma coisa na esperança que me seduzia. Claro, seduz a todos nós. E se eu não me mantivesse firme a esperar por ele até que ele me desse o não que punha fim a tudo, eu me sentia culpado por tentar ser forte quando muito obviamente eu não era.

“Que deu nesse garoto?” Minha mãe perguntou.

“O quê?”

“Fiz torrada pra vocês dois por muito tempo. A dele era sempre salgada.”

“Deve ter mudado de gosto, mãe. Já passou tanto tempo.” Engoli minha torrada, muito mais por educação do que por vontade. Acho que além de ter contribuído para o meu mau humor, a presença de Maurício exercia, acho que no meu subconsciente, uma ação moderadora de apetite. Eu não podia ficar gordo. Pelo mesmo motivo que não podia socar minha cara com raiva.

“Seu João vai te buscar em uma hora, tá?” Disse minha mãe me entregando a lista e o cartão de débito da Sônia que ficava com ela pras necessidades da casa.

Me senti, em parte, aliviado dentro do mercado. Não tinha Maurício, não tinha a possibilidade de topar com ele, nem dele aparecer e comer minha torrada doce. Só tinha eu, os produtos e aquele monte de gente desconhecida que não sabia que eu era o filho da empregada de ninguém. Peguei tudo da lista e fui para o caixa pensando no carinha que pesou os legumes. Quando me devolveu os últimos, deslizou sua mão pelo dorso da minha e me olhou nos olhos com um sorriso. Ele não era feio. Era novo e bem bonitinho até, mas ele não era Maurício.


Parei do lado de fora com as sacolas ainda dentro do carrinho onde Seu João sempre me pegava, mas não era ele quem tinha vindo me buscar. A não ser que eu muito me enganasse, coisa muito duvidosa nesse sentido, aquele era Maurício, em pé, fumando um cigarro, mais à frente no estacionamento. 

Continua...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Vencedor - Capítulo 2

O Vencedor

Capítulo 2 

Eu criei coragem pra abrir os meus segredos aqui. Me chamo Abel, tenho vinte e um anos e estou na cadeia. Vou tentar te contar tudo conforme foi acontecendo.

Pra começar a te falar de mim, eu vou te falar primeiro de Maurício. Eu sou só o filho da doméstica que limpava a casa dele. É isso desde que eu nasci. Parece que minha mãe se tinha dado pro jardineiro que fugiu de volta pro norte quando soube da gravidez. Foi o que me contaram.  

Isso pouco me entristece ou importa, muito sinceramente. Acho até que chego a algum sentimento que me parece culpa por não sentir nada. Acaba que serve. Traz uma certa paz, isso de conseguir sentir pelo menos culpa. 

O sentimento mais forte que me lembro de sentir era vontade de ser parte daquela família. Crescer de fora do lado de dentro de uma família que não é a sua pode ser muito confuso.

Maurício tinha pouco mais de um ano quando eu nasci e, naturalmente, herdei os restos dele, sempre herdei o que ele não usava mais, o que não lhe cabia mais, o que ele não quisesse mais. Ganhei o berço, as roupinhas de pagão, os cueiros... Até as fraldas de pano dele vieram pra mim. E chego a acreditar que chupei também suas primeiras chupetas e mamei em suas mamadeiras velhas.  

Assim, eu andava pela casa como um mini-Maurício, uma versão pobre, de segunda-mão dele. Aos meus bonecos faltavam braços ou pernas e meus carrinhos andavam sem rodas aqui e ali. Era muito mais fácil me dar tudo do que ter o longo trabalho de jogar no lixo. Também acho que seria feio pros donos da casa jogarem os pertences velhos do seu filho no lixo uma vez que havia ali o filho da empregada pouca coisa mais novo. Não pareceria correto da parte deles. 

E era exatamente assim que eu era tratado dentro de casa. Corretamente. No meu devido lugar. Me davam uma atenção e até algum cuidado porque, assim, parecia adequado. Não me lembro de já ter ganho um beijo da Sônia ou coisa parecida. E embora, hoje, ela viva repetindo que me ama mais que a Maurício - quando a levo bêbada escada acima - ela sempre me tratava com não mais que certa amabilidade decorosa. Apenas. No Natal, eram tomados por um senso de cristianismo e me enchiam de presentes, novos, comprados pra mim.

Lembro de passar noites delirando com como seria a vida se eu fosse filho dos patrões, irmão de Maurício. Dele eu queria estar perto o tempo todo, quase como uma sombra. Adorava ouvir o som da sua voz, ser acordado por ela; brincar com ele e todos os seus brinquedos ou apenas ficar deitado do seu lado assistindo TV.

Muitas vezes ele me ajudava com o dever, o que era bom pra ele rever o que tinha visto no ano anterior. Estudávamos na mesma escola. Os pais deles pagavam por mim. Existe até uma poupança em meu nome, sob cláusula de servir apenas para fins acadêmicos. Eram gente muito, muito rica. De uma família de gerações e gerações de gente muito, muito rica. De ambos os lados. Podiam se dar ao luxo de deixar bem o menino que crescia nos fundos da mansão histórica herdada por Sônia.

Não posso dizer que "conheci" Maurício. Não posso começar a contar sobre um evento específico em que tenha sido apresentado a ele, mas a memória mais antiga que tenho dele tem a ver com uma dor horrível causada pela mordida de um Maurício de seis anos quando, segundo me conta minha mãe, me viu brincando com o "Lava-Rápido de 3 Andares Hot Wheels" dele.  

Eu ia escrever que criança não tem vergonha na cara pra explicar que voltei a brincar com ele logo que o meu braço parou de doer, mas não posso usar as crianças pra justificar a minha falta de amor próprio. Porque aquela não foi a única vez em que eu voltei a "brincar" com ele depois de ele ter me machucado - física, psicológica e emocionalmente falando. Não. Isso se repetiu muitas outras vezes.  

O nome lhe tinha caído como uma luva. Porque se tinha uma coisa que aquele garoto era, era mau. Uma vez me deu um vidro de amônia e mandou que eu cheirasse: 

"Cheira só. É um cheiro muito bom." Eu tonto, enfiei o nariz com força no vidro e se você, alguma vez, já inalou amônia, entende do teor de maldade no coração de Maurício.
  
Houve outra em que ele tinha o skate novinho em frente a ele e me chamou pra me contar um segredo, quando cheguei suficientemente perto, ele deu um pisão na ponta da prancha que levantou voo direto pra minha boca. Levei três pontos no lábio. Ele ficou de castigo por três semanas, uma pra cada ponto que levei. Mas parece que saiu em condicional no segundo dia, afinal eu era só o filho da empregada.  

Você deve estar pensando: "Como alguém pode ser tão idiota e pagar tanto pau pra um sujeito desses?"  

Acontece que tinha um outro lado dele. Um lado que só parecia vir à tona quando eu começava a chorar de algum mal que ele me tivesse feito. Ele ficava todo afoito, meio desesperado, fazendo de tudo pra me aliviar da dor. E não era pra me fazer calar na esperança de que não percebessem o que ele tinha feito, porque a primeira coisa que ele fazia quando alguém chegava era se acusar. Ele não tinha medo das retaliações de sua maldade. Parecia que tinha medo mesmo era do que ia acontecer comigo.  

E, então, ele virara como um amigo pra mim. Só me tratava bem, me deixava brincar com o que eu quisesse e até me mandava socá-lo pra descontar o que tinha feito - nunca pude lhe causar dor em igual medida, sempre fui essa florzinha fresca nojenta!  

A primeira vez em que ele entrou escondido no meu quarto de madrugada foi quando eu tinha acabado de chegar do hospital. Desta vez com um galo de uma pedrada que ele me brindou a testa. Eu tinha sete anos e me lembro de tremer de medo de que ele tivesse ido ali pra apertar o meu galo ou outra maldade qualquer, mas ele veio com uma sacola com gelo e me disse pra calar a boca que aquilo ia aliviar.  

Posso dizer que, verdadeiramente, aliviou. Mas não o gelo, e sim o cafuné que ele ficou me fazendo. Ele deitou na cama comigo e mandou que eu deitasse minha cabeça no seu braço, me abraçou e dormimos. Quando acordei ele já não estava do meu lado, mas durante o dia inteiro e também pelas duas semanas que seguiram, Maurício era só cuidados comigo. Nos primeiros dias, deitava minha cabeça no seu colo pra aplicar a compressa de gelo enquanto víamos desenho na TV.  
Lembro que já aí, eu conseguira gostar de ter levado a pedrada. Eu já entendia que aquelas coisas funcionavam como um Vale-Maurício-Bonzinho pra mim.  

Mas até isso acabou. A vida naquele palacete foi virada do avesso quando Armando e Sônia se separaram e Maurício foi embora com o pai pra França quando eu tinha doze anos.

E foi tudo um inferno. E eu não sei se ardia mais quando Maurício vinha passar as férias com a gente ou durante o ano letivo quando ele sumia pra casa do pai e só ligava de vez em quando pra falar com a Sônia. Eu acho que ardia igual, o inferno queimava igual o ano inteiro, só que, paradoxalmente, alguma coisa na baforada quente que era a presença dele, me aliviava a queimação. Pelo menos eu sabia dele, onde estava, o que fazia. Podia vê-lo e, quem sabe, se ele assim quisesse, podia satisfazê-lo no meio da noite.  Mas ele só veio nas férias nos primeiros dois anos e parou de vir. Sônia é que ia visitá-lo e nunca me levaria junto.

Muitas vezes eu quis morrer. Talvez o inferno de verdade fosse um pouco mais fresco do que o meu. Ou talvez, de tanto sofrimento, eu fosse direto pro céu penitenciado e absolvido de todos os meus pecados. A maioria deles, cometidos de acordo com a vontade de Maurício. Foi sempre assim, tudo de acordo com a vontade de Maurício.  

Mas Armando morreu, assim, sem mais nem menos uns cinco anos depois que foram embora, fico pensando se a força do meu pensamento teve alguma coisa a ver com isso. Não duvido. Não desejei que ele morresse, mas que Maurício voltasse pra casa e foi o que aconteceu.

Acho que eu estava contando da primeira massagem que fiz nos pés de Maurício. Depois disso, fiquei mais um tempo sem vê-lo. Mesmo morando na mesma casa, isso não era difícil de acontecer e eu não ia repetir o ridículo de aparecer no seu quarto. Não tinha estrutura pra tamanha humilhação. Pode até ser que ele desejasse que eu fizesse assim, mas eu não tinha coragem pra apostar nisso.

Eu estava deitado no meu quarto pensando em Maurício. Ele já tinha chegado. Já tinha subido as escadas e era tudo silêncio. Eu não tinha forças pra desviar meu pensamento. Só fazia pensar nele e desejar estar perto dele de novo, quando tomei um susto com o barulho da porta do meu quarto sendo aberta.

Maurício estava em pé, os olhos vazios me encarando. Ele cheirava a álcool e cigarro.

“Tô com fome.” Disse de olhar bêbado e sumiu da minha visão.



Continua... 

O Vencedor - Capítulo 1

O Vencedor 

Capítulo 1

Fazia aí um mês que eu não conseguia dormir direito. Um mês desde que eu tinha ganho dele apenas o “Oi” frio e duro que me lançou quando corri pra ajudá-lo com as malas que acabei carregando sozinho. Um mês acordado, fantasiando que ele ia precisar gozar em algum momento e ia lembrar que podia me usar pra isso como fez na última vez em que tinha vindo nas férias.

Maurício voltou e eu não sei o que me tomou. De primeiro, alegria que eu mal podia conter, todo sorrisos e olhos brilhantes e então o desespero, tristeza, desilusão, ele não tornou a falar comigo, eu não o via, não me atrevia a me forçar aos olhos dele.

Ele saía todas as noites, quase. Voltava de madrugada bêbado e só acordava já depois do almoço. E exatamente na noite em que fazia um mês do retorno dele, me vi subindo as escadas para os quartos da família.

Quando ouvi o motor do carro recém comprado, eu já tinha assumido a minha posição de espera incansável: a luz acesa pra me mostrar acordado e a porta entre aberta pra encorajá-lo.

Esperei. Atento a cada som. O coração sobressaltado com as possibilidades que minha mente insistia em avivar. Meu desejo me fez ter quase certeza de ouví-lo vindo em direção ao meu quarto, mas o som que sucedeu o da porta se fechando foi o dos passos de Maurício subindo a escada pra longe de mim.

Mais uma vez ia ter de agonizar a presença dele tão próxima, mas distante, como se nem tivesse retornado. Ele estava ali, no andar de cima, tão perto que eu não podia suportar não tê-lo.

Logo fez-se silêncio e imaginei, que, bêbado, tivesse se jogado na cama para dormir.

Não sei o que me deu, de onde tirei aquela força, mas me levantei, apaguei minha luz e sai do meu quarto certo de ir até o dele. O que diria para justificar minha estranha aparição no meio da noite eu ainda não sabia. Só sabia que tinha de ir, como que sendo meramente guiado pelo meu corpo, cego no meu desejo, subi as escadas e quando dei por mim estava diante da porta aberta do quarto de Maurício e, antes que pudesse me impedir, entrei.

Ele estava deitado na cama, adormecido, sem camisa; o botão da calça jeans aberto e os tênis ainda nos pés que pendiam pra fora da cama. Ajoelhei-me juntos deles e me permiti aquele álibi pra poder tocá-lo. Desamarrei o cadarço do primeiro pé, meu corpo todo quente, lascívia correndo nas veias ferventando o sangue, tirei-lhe o tênis e depois a meia, encarei o pé de solado úmido, quente, queria senti-lo no rosto e estava a ponto de tocar um no outro quando a voz de Maurício se levantou fria:

"Que que ’cê tá fazendo?" Soltei seu pé num sobressalto.

"Eu só tava tirando seu sapato." Ele me observava. Os olhos frios e firmes grudados em mim; o rosto impassível. "Eu vi que você não chegou muito bem e vim ver se precisava de alguma ajuda, aí você tava dormindo de tênis e eu pensei que seria melhor tirar."  

"Eu te pedi alguma coisa?" O olhos dele faíscaram no breve momento que os encontrei antes de virar os meus pro chão. "Daí, ia tirar minha roupa, me dar um banho e me colocar pra dormir?"  

"Não. Só ia tirar os tênis."  

"E depois?"  

"Eu ia voltar pro meu quarto."  

"Dessa ideia eu gostei."  

Levantei me odiando por parecer tão patético, assim, na frente de Maurício. Virei-me. Sentia o rosto esquentar e tremer de humilhação.

“Ôu!” Sua voz soou e eu parei como se tivesse escutado meu próprio nome. "O outro tênis tá apertando meu pé. Tira ele também."  

Voltei a me ajoelhar em frente à cama. Me lembro que tremia. Meu corpo, agora, ardia, parecia em chamas sob os olhos de Maurício. Juntei toda a dignidade que consegui e desfiz o laço e puxei o tênis e, em seguida a meia também. Ele sentia prazer em me humilhar ou só queria mesmo alguém que lhe tirasse o tênis?

"Liga o ar lá." Apontou com a cabeça enquanto flexionava os pés. "Você veio ajudar?" 

"Sim."  

“Fecha a porta e tira a minha calça.” Obedeci e puxei a calça pelas bainhas e perdi meus olhos nos pelos negros das pernas morenas dele. Ele me teria? Ia prender minha cabeça até que eu sufocasse com seu sêmen de novo? Eu queria que sim.

“Meus pés.” Indicou-os de novo. “Estão doendo. Massagem. Essa é a ajuda que preciso.” Ele nem olhava pra mim.

Não demorei a obedecê-lo. Aliás, era tudo o que eu queria. Pelo menos estava com ele, tocando-o. Comecei a massagear o pé direito, eu não sabia como fazer isso, mas me empenhei, principalmente, para mostrar carinho. Não sei, precisava faze-lo sentir e acho que consegui porque ele largou o pé esquerdo sobre meu ombro, descansando a perna.

O peso sobre mim foi como um presente. Aproveitei o momento para, fingindo surpresa, olhar para o pé no meu ombro de modo que pudesse lhe tragar o cheiro pra dentro das minhas narinas, sem que ele percebesse tamanha bizarrice. Não fedia, mas cheirava a suor de meia limpa. Guardei seu pé esquerdo como quem sustenta um telefone com o ombro e voltei à minha massagem no direito.

Vi Maurício puxar os fones na mesa ao lado e pluga-los ao telefone, demorou-se um tempo com o rosto iluminado e, então, colocou o aparelho de lado, fechando os olhos para ouvir melhor a música. Ele não sentia nenhum prazer em me humilhar, só parecia gostar de ter quem lhe massageasse os pés cansados.

Mas que fosse, pelo menos, ele estava finalmente ali, na minha frente, deitado, usando apenas uma cueca e eu com seus pés em minhas mãos. Queria poder lambe-los, raspar meus dentes neles, cheira-los e chupa-los. Queria senti-los esfregados no meu rosto. Mas não podia. Maurício ia achar muito esquisito.

Eu mesmo coloquei o pé direito sobre meu ombro quando achei que era hora de mudar para o outro pé. Eu ia tê-lo quando terminasse. Eu sabia que ia. Precisava, no entanto, esperar a hora em que ele dissesse que eu terminasse.

“Tá bom.” Ele disse sem tirar os fones dos ouvidos.

Soltei seus pés e ele os levou pra cima, se ajeitando na cama. Eu fiquei do mesmo jeito, ajoelhado e olhando para ele.

“Ok.” Ele levantou o polegar. Eu continuei sem me mexer.

“É pr’eu ir ou...”

“É pra ir. Quero dormir.”

Saí do quarto me sentindo um lixo. Tinha ido lá me humilhar e lhe servir apenas com uma massagem. Tinha ido em busca de migalhas. Desci as escadas com um bolo pesado na garganta, as pernas tremiam e os olhos ardiam. Ainda assim, me vi excitado quando me deitei na cama com a angústia apertando o meu peito. Lembrando dos pés, de tocá-los e ter estado tão perto, me estimulei e gozei e desandei a chorar.