<<<Antes de tudo, me desculpem. Me desculpem por abandonar o blog e deixá-los curiosos sobre o que me aconteceu. O problema é que, um dia antes do carnaval, todas as celas aqui foram revistadas, por conta de intervenção militar no Estado do Rio, e todos os celulares encontrados, apreendidos. Demorou para conseguir chegar até outro aparelho e quando isso aconteceu, eu é que não estava nada bem para revisitar o meu passado e o motivo que me trouxe pra trás dessas grades. Peço mais uma vez desculpas por isso e prometo que vou concluir o que comecei, só não posso garantir que terei forças pra fazer isso rápido. Vou tentar, porém. Me perdoem e se ainda estiverem aí, aqui vai mais uma parte da minha história pra vocês.>>>
O Vencedor
Capítulo 18
Num movimento leve, eu alcancei o rosto dele e tratei de amparar-lhe a lágrima. O beijei na altura em que ela se precipitava e suguei sorvendo mais aquele líquido expelido pelo corpo de Maurício. De alguma maneira, eu o tinha desarmado, desprendido de sua dura armadura de cara mau. Um menino diante dos meus olhos, um menino sofrido, quiçá arrependido, que, finalmente, era meu.
Os olhos dele se grudavam nos meus e eu me peguei atento à natureza daquele encontro: Maurício era meu como o beija-flor pertence à rosa. Os meus olhos desabrochavam, porosos, diante dos deles, que bicos, me entravam, fálicos.
Eu não tinha medo, não tinha dor, não tinha nem felicidade, estava acima disso tudo. No encontro com os olhos de Maurício, ele dentro de mim, eu me sentia acima dos sentimentos, como se eles não pudessem me afetar com suas oscilações vaidosas. Eu estava completo.
"Me come, Maurício." Supliquei num suspiro choroso.
"Não vai machucar?" Veio bondoso, mas eu já podia sentir a firmeza de sua bondade se serpenteando por entre minhas coxas.
"Não. Já tá bom. Vem."
"Devagarinho?" Mordeu minha bochecha.
"É." Fiz que sim com a cabeça. "Deixa eu sentir entrar cada pedacinho."
Ele sorriu, só os dentes de cima apareciam. Os debaixo se escondiam por detrás do lábio. Eu já estava sem shorts, sem cueca, um travesseiro dobrado por baixo do meu quadril. Maurício, então, puxou minhas pernas pra cima dos seus ombros e mordeu uma de minhas panturrilhas com força.
"O que foi?" Perguntou sínico ou ouvir a minha dor escapulida num gemido. "É tudo meu mesmo. Eu mordo, sim." Me sorriu e seus olhos brilharam intensos, o fogo que dele saía, me invadia junto e me fez arder tanto mais ainda do que a mordida com que ele, por direito, me marcava a outra perna.
Quente. Como a quentura da sua glande babada a me bater à porta, impondo-se, nervosa, impondo-se a entrar e ser guardada onde lhe era o lugar. Ser recebida e acalentada, honrada como a deusa que me era e me abria e me afrouxava a se entrar.
Maurício sorria largo, o safado. O sorriso de um campeão erguendo o prêmio e alguma coisa, no olhar que me lançava, me fazia lembrar do olhar de doçura que o medalhista de ouro costuma lançar a seus colegas de prata e bronze, lá do alto do pódio. Apesar de toda a sua simpatia e adestrada modéstia, era ele quem tinha vencido e isso o fazia, de um jeito ou de outro, superior.
Maurício era meu uma ova! Eu via. Eu via que ele me olhava do mesmo jeito bondoso, e até culpado, com que eu olhava pra Fernando. Carregado de pena e pesar. Até algum cuidado. O cuidado que é devido diante da culposa responsabilidade que se tem sobre tudo aquilo o que se cativa, ainda que não se tenha pretendido cativar nada. Se lembrar de Fernando, ali em Búzios, com a cabeça do pau de Maurício entrando e saindo pelo meu cu laceado, me causava a sensação de ter engolido uma pedra de gelo, me dar conta do olhar condescendente de Maurício me causava a sensação de estar dançando em uma fogueira depois de ter engolido lâminas afiadas.
"Para." Eu queria ter dito. Queria ter encontrado a dignidade que eu precisava pra não ver meu brio, assim, tão barateado, mas minhas zonas erógenas, eriçadas, se levantaram prontas em rebelião só ao mero pensamento de fazê-lo parar com aquilo.
Eu estava acostumado ao bronze, a não ter o meu nome mencionado nos jornais. E estar ali, convidado por ele a subir no mais alto onde ele estava, nem que fosse pra apenas uma foto – cujo flash me convidaria a retornar ao meu devido lugar de volta –, me parecia glorioso demais pra que eu desperdiçasse em virtude de algo tão pequeno quanto o meu orgulho. Acostumado ao bronze e até afeiçoado a ele; tanto que já nem me dava mais ao trabalho de competir coisa alguma.
Não. Eu não ia ter momentos felizes nesta história. Ia gozar, eu sabia que ia continuar gozando como ninguém. Até porque para alguém com minha autoestima e poder de resignação, a relação entre nós dois era como que boa, perfeita e agradável. Como que, apenas. Eu o amava. O objeto de todo meu amor, me usava. Eu não tinha forças para dizer que não queria e nem forças para não querer. Pelo menos o tinha, na brevidade que fosse, eu o tinha. Quantos apaixonados não correspondidos podem se dar ao luxo de terem aquele que amam dentro de si com tanta frequência?
Ele dizia que me amava, mas seu olhar gritava pena. Pena e desejo, se isso me servisse de alguma consolação. Até que servia.
"Aaahhhhh." Escapou-lhe um suspiro. O hino nacional de sua terra sendo entoado, mesmo a despeito do meu mais absoluto silêncio. Não sabia cantar aquela música, não reconhecia aquela língua, mas sabia bem que soava como vitória. Uma vitória que não era a minha.
Estava me gozando, se contraindo e sorrindo todo satisfeito. A rola inteira foi deixada escorregar para o meu reto, facilitada pelo leite que acabara de largar ali.
Descontraído e lambuzado, o meu esfíncter se via dado para o livre acesso do único dono que reconhecia, abraçando-o carinhosamente com suas entranhas quentes. E Maurício, ensandecido, me escavava mais profundo com seu pau que não se tinha amolecido ainda.
"Quer dentro? É?" Cutucava intenso. "Quer minha pica toda dentro de você?"
"Quero." Eu choramingava. Meu corpo queria, minha alma queria, mas meu espírito gritava que não. Nossos olhos encontrados. Os meus, divididos - não! Divididos não. Já tinham aceitado o quanto podiam receber e se davam uníssonos. Os dele, sim, divididos, ainda entre a pena e o desejo animal de, pelo menos, gozar onde gostava de vir gozar.
E eu o puxei pelo tronco, o queria mais fundo, mais em mim. Que machucasse. Que arrebentasse com tudo de vez pra que o físico se equiparasse ao interior em ferimentos. Ainda que eu soubesse que pra isso, fosse necessário talvez uma espada para que ele me empalasse logo de uma vez. Aí, eu teria o equilíbrio entre as duas coisas. Mas o que eu queria mesmo era fundi-lo, confundi-lo, soldar seu pau dentro do meu cu.
Ele me dobrou ao meio, atendendo ao pedido das minhas unhas fincadas em suas costas, puxando-o pra mais dentro. Maurício me beijou e me entregou sua língua para que eu a chupasse, a sua saliva escorria pra dentro da minha boca e eu a engolia como se matando a minha sede, a minha mais insistente sede.
E o acariciava nas costas e lhe beijava o rosto, sentindo sua rola pulsar no meu intestino esporrado, que se expandia para melhor recebê-lo, piscando e mordendo-o com o amor todo que eu conseguia expressar.
"Fica dentro, meu dono. Não sai de mim." Eu implorava. "Come esse cuzinho que é seu. Seu pra você botar. Bota nele, Maurício." Meus lábios serpenteavam babados, incontidos, pela orelha dele.
"Eu fico. Saio daqui nada." Eu podia sentir que ele sorria. "Escorregando na minha porra, olha." Eu, na verdade, só podia sentir. Entrava fácil, indolor, delicioso.
Mas ele saiu de dentro. Me deitou de lado, de costas pra ele e passou o braço por volta do meu pescoço e se encaixou em mim de novo, mordendo minha orelha, de onde gemia com ferocidade.
"É a femeazinha do Maurício?" Me perguntou bombando com calma.
"É." Minha voz, instintivamente, mais fina... Eu não pensava em afiná-la, não era como se dirigisse a mim mesmo numa cena ou coisa assim, fluía, saía de mim desse jeito, menina pra ele. Era o que eu sempre fui. Era o que ele sempre me tinha feito: a menina dele. A mãe do Melocoton, a esposa, a namoradinha... E era bem mesmo tudo o que eu queria ser.
Queria que aquele leite me fecundasse, me colocasse um pedaço dele pra crescer no ventre e, então, ser, de verdade, a mãe do filho de Maurício. Minha anatomia, porém, estava bem ali pra me dizer que tal opção não constava em seu sistema. Maurício, por sua vez, não parecia saber disso.
Um braço se fechava ao redor do meu pescoço - braço este cujos pelos eu lambia e mordia com os lábios -, o outro se fechava em minha cintura, puxando-me, fazendo-me dele ainda mais, enquanto ele se movimentava empurrando o pau pra dentro e o puxando pra fora. Ele mordiscava minha cabeça. Meus cabelos, ainda cheirando a shampoo, dentro de sua boca.
Não resisti e levei minha mão ao meu próprio pau que já doía de tão rígido. Gozei, me explodindo rápido.
O meu gozo deve tê-lo enlouquecido, porque se empurrou todo para o fundo e ficou lá pulsando, jogando mais leite dele no meu íntimo. Enfiou-se o mais fundo que pôde e grudou nossos corpos no suor.
Ele ficou me beijando o pescoço calado. Foram incontáveis estalinhos que chegaram a deixar minha pele mais sensível onde tocaram. Talvez fosse um pra cada pena que sentia de mim, um pra cada culpa de me usar sabendo que eu desesperadamente o amava. E os beijos cessaram e seu som foi trocado pelo ressonar alto de Maurício que adormecera com o pau enfiado dentro de mim.
Temerário de que qualquer movimento o pusesse pra fora, me mantive quieto, imóvel, sentindo o arrepio que a respiração dele causava à minha nuca. Até que, também eu, adormeci, mais uma vez, exausto de pensar e calcular a natureza instável do que havia entre nós.
Eu queria te contar que nossos dias em Búzios seguiram cheios de outros momentos regados a amor e/ou lascívia e a mais absoluta perversão. Queria te contar que Maurício e eu ficamos horas deitados no futon sob as jiboias ou que fizemos muitas refeições inadequadas entregues em domicílio. Queria te contar das outras vezes em que ele me mijou e da vez em que eu mesmo me mijei enquanto ele mijava dentro de mim. Queria contar das mil vezes em que ele me tomou nos braços e me arrancou o fôlego em beijos tórridos. Como também queria te contar que sequei com outro beijo uma outra lágrima que vi escapar do olho direito dele quando confessou que, em vão, vinha lutando contra seu bom senso, as expectativas da minha família, a inferioridade de meu nascimento, a posição dele e que estava disposto a colocá-los de lado e me pedir que dê um fim em sua agonia por que me amava. Ardentemente.
Pra você ter uma ideia, queria poder te contar até que a estada lá seguiu regada das minhas incertezas quanto aos sentimentos de Maurício em relação a mim, ou ainda da certeza que eu tinha de que ele só estava envolvido comigo por pena ou porque gostava do domínio que exercia. Ou por causa das duas coisas, talvez.
Mas o telefone tocou antes que tudo isso pudesse ter acontecido, então, não tenho nada disso pra te contar. O que tenho pra contar, porém, é que era minha mãe na linha - ainda estávamos grudados quando acordamos assustados com o toque do meu celular na manha seguinte, deu até pra sentir a cola da porra seca se partir quando nos desatamos - dizendo que minha avó estava muito mal, que já não bastava o câncer, tinha sofrido um avc e que também, não era pra menos, tinha sido desenganada - uma coisa que eu achava que só existia em novela.
Também queria poder te contar que a notícia me desestabilizou, me deixou apavorado ou deprimido, mas daí, eu seria mentiroso. Eu só lembro de me sentir triste pela minha mãe. Pra ser honesto, minha avó não era realmente uma figura importante na minha história. Era alguém distante a quem eu só havia visto umas três vezes - e veria por uma quarta, uma última vez, antes que ela se despedisse daqui.
Pois é. Minha mãe queria ir às pressas pro Maranhão e queria que eu fosse com ela.
"Pede desculpa pra Maurício, mas pede a ele se tem como você usar o helicóptero."
"Tá bom, mãe. Vou ver isso."
"Eu vou tentar comprar a passagem na Internet."
"Deixa que eu faço isso, mãe. Não vou demorar a chegar aí."
"Tá."
"Tenta ficar calma, viu? Vai dar tudo certo." Disse tomando o cuidado de parecer convicto disso antes de desligar o telefone.
Lembro de me sentir falso. Eu não achava que daria tudo certo. A gente sempre diz esse tipo de coisa mesmo que não possa, de fato, ter certeza de o que qualquer coisa vá dar, certo ou errado. Mesmo toda a convicção que tentemos mostrar não é capaz de alterar nenhum que venha a ser o resultado. E também o que havia de tão errado em tudo não dar certo pra alguém idoso com um câncer e ainda por cima saindo de um AVC?
"Em 40 minutos, o helicóptero chega aqui, tá? Calma." Maurício voltou ao quarto com o celular na mão. Eu nem tinha falado com ele, nem tinha chegado a pedir, nem tinha sequer dito exatamente o que estava se passando.
"Você não fica chateado?"
"Claro que não." Ele disse me abraçando.
"O que você vai ficar fazendo aqui sozinho?"
"Eu vou voltar pra casa contigo." Mas o que fez foi deitar na cama, onde se espreguiçou nu, expondo os sovacos peludos e a pentelheira negra esbranquiçada aqui e ali de porra. Maurício parecia tão maravilhoso com o rosto inchado de manhã... E o Maranhão ficava tão longe dele... Mas eu não podia ceder às minhas tentações. Eu tinha de ser firme e ir embora para ser o braço forte de que minha estava precisando. Eu juro, porém, que se pudesse ter previsto que estava deixando para trás, ali naquela casa, toda a felicidade frágil que demorei muito para conhecer, não teria entrado naquele helicóptero. Do contrário: teria ficado exatamente onde estava e ainda teria mantido Maurício em cárcere privado.
Se você tem muito dinheiro, ou, como eu, não tem nenhum, mas vive perto dele o suficiente para saber como ele pode ser mágico, entende quando eu te digo que em menos de três horas estávamos, minha mãe e eu, no Santos Dumont, fazendo check in num vôo para Guarulhos, onde tomaríamos um outro para São Luís.
Ainda quando sobrevoávamos a Região dos Lagos, Maurício ligou pra uma das secretárias da empresa deles e pediu que ela resolvesse a questão das passagens e chegando à casa já tratou logo de tranquilizar minha mãe, tomando pra si toda e qualquer despesa que tivéssemos, inclusive as despesas hospitalares da minha avó - mais uma vez por telefone com a secretária, ele acertou a transferência da enfermaria no hospital público em que ela estava para um quarto individual no UDI Hospital que, segundo li num jornal de um dos carcereiros aqui, foi vendido pra Rede D'Or em janeiro passado.
Como o dinheiro de Maurício já tinha feito todo o trabalho que eu poderia fazer, e até o trabalho que eu nem teria como fazer, eu tinha algum pouco tempo livre e resolvi usá-lo para resolver uma pendência que não queria deixar pra resolver só depois que eu voltasse do Maranhão.
Bem a tempo da hora do almoço de Fernando, Maurício saiu pra buscar Sônia numa das galerias de arte que ela gostava de manter por uma mera questão de status, ou terapia ocupacional. Seu João tinha sido mandado com um quadro até Niterói e Sônia, simplesmente, não queria chamar um Uber. Sua maneira velha-mimada de ser acabou, pelo menos uma vez na vida, vindo a calhar, mas até de ter ficado feliz por isso, eu me arrependo.
"Oi. Tá saindo pro almoço agora, né? Pode me encontrar?" Enviei pra ele.
"Sim. Posso." Quase que imediatamente, respondeu.
"Blz. Vou te esperar na entrada de pedestres do mercado."
"Vou levar minha marmita, ok?"
"Claro. Sua marmita também é bem vinda. Kkk"
Bem, era bom que ele não fosse daqueles que perdem a fome quando recebem notícias desagradáveis. Eu tinha uma que talvez ele recebesse como má notícia.
Eu vinha tentando evitar o pensamento, mas a cada dia em que eu o tentava calar ele gritava ainda mais alto por detrás de sua mordaça: "Você usou este menino. Você usou este menino. Você usou este menino." Eu gostava de pensar que não. Que, de fato, tinha resolvido me dar uma chance de tentar algo com alguém diferente, alguém que não me cuspisse ou mijasse, alguém que beijava minha boca antes de colocar o pau pra fora. Tudo mentira, no entanto. Chega uma hora em que a gente para de acreditar nas mentiras que precisa se contar. O que eu queria na verdade, era alguém que me fizesse sentir melhor e forte para a hora de lidar com os flagelos do efeito Maurício na minha vida.
Eu tinha usado Fernando. Feito com ele coisa muito perto do que eu tanto choramingava ter sofrido. Eu não o amava, não o desejava ao ponto de abandonar minha doença predileta e viver uma vida feliz, como, muito provavelmente, seria a vida que me esperaria ao lado de Fernando se as minha ideias de felicidade não fossem tão equivocadas. E não havia nada que eu pudesse fazer a não ser olha-lo nos olhos dizer-lhe a verdade. Não ela toda. Não que o tinha usado, ainda que mentisse pra mim que não. Eu não podia dizer isso tudo. Não porque precisasse proteger minha imagem de bonzinho e conseguir isenção da culpa. Eu não podia falar a verdade toda porque ela era pesada demais para alguém tão doce quanto Fernando.
"Apareceu, sumido." Foi o que ele veio dizendo com aquele sorriso fofo toda vida que eu estava prestes a arrancar de seu rosto.
Fernando me abraçou e me deu um beijo demorado no rosto. Ele estava cheiroso como sempre e seu abraço tinha um gosto de "por favor, me abraça forte e não me solta nunca mais", mas ainda assim, por mais que eu quisesse ser o todo bonzinho e não magoá-lo e tudo o mais, não era o abraço dele, exatamente, que eu queria que não terminasse nunca mais.
Fomos pra uma praça logo ao lado do mercado dele. Ele abriu sua marmita e perguntou se eu estava servido. Lembro de tudo como se fosse hoje. Eu disse que não. Que do jeito que eu estava, não conseguia comer nada.
Confesso que rodeei um pouco e fiquei falando da minha avó e até aumentei um pouco o meu sofrimento pela questão toda. Mas isso foi só pra dar tempo de Fernando comer sua comida antes que eu lhe roubasse o apetite com a conversa que queria ter de fato. Não estou falando assim por me sentir demais ou por achar que todos estão aos meus pés prontos pra sofrer de acordo com as oscilações dos meus sentimentos. Esse era Maurício. Mas eu já sabia, e ficou claro também depois, que Fernando não ia ficar muito bem uma vez que eu dissesse.
Ele terminou de comer e já, todo doce que era, veio pegando na minha mão com seu sorriso de pseudo canalha.
"A gente não pode mais continuar a se ver." Ele soltou minha mão e recuou o corpo como quem tivesse acabado de ser esbofeteado, mas não falou nada. "Eu gosto de você." Eu precisava ter cuidado, mas descobri que nenhum cuidado era suficiente. "Você é um cara incrível, mas eu sou apaixonado por outro. Eu achei que podia tentar, mas não acontece, então, também não é justo com você. Eu não posso deixar você seguir com uma história que não vai dar em nada."
Fernando só ouvia. O silêncio dele estava me matando e como era difícil lidar com isso, eu falava descontroladamente.
"Se eu não fosse tão idiota, largaria tudo e seria feliz do seu lado. Eu realmente seria feliz com você. Tenho certeza, mas sou preso a um sentimento doente que não me deixa. Na verdade, eu não quero que me deixe."
"Esse seu sentimento tem a ver com aquele cara ali." Apontou.
Logo atrás de mim, dentro do carro parado ao lado da praça, eu podia ver Maurício com os olhos vidrados na minha direção. Meu coração logo se comprimiu. Sônia também estava no carro. Maurício encarou meus olhos enviando a eles todo o ódio que sabia sentir e deu a partida indo embora.
"Eu sabia que a relação de vocês não era a que vocês diziam, a que você dizia. Eu já tinha entendido porque ele parece tão esquisito e você tão esquivo." Ele virou para o lado e levou o dedo ao olho esquerdo. "Mas o que eu posso fazer?" Voltou como quem sacode a poeira. "É dele que você gosta. Nunca vai gostar de mim."
"Eu gosto de você..."
"…mas estou preso a um sentimento destrutivo que me impede de ser feliz." Me interrompeu remendando minha voz. "Poxa, sério? Cara, não vou ficar aqui pra assistir você acalmar sua culpa. Faz o que você quer e vai atrás dele que ele deve estar muito puto agora."
"Fernando, eu..."
"Cara, só vai. Não tem nada pra você fazer aqui comigo."
Me levantei, sinceramente, aliviado. Não posso mentir. A atitude dele por mais justificada que fosse, me autorizava a ir embora sem precisar prolongar aquela conversa dolorosa para nós dois.
"Tudo de bom, viu." Ele levantou os olhos pra mim. "Você vai encontrar alguém que se ame e que vai saber valorizar o cara que você é. Eu não me amo. Só posso amar o que me destrói."
Maurício já não estava em casa quando eu cheguei. E não retornou pelo menos enquanto durou a correria, minha e da minha mãe.
Eu já sabia que pagaria caro por aquela conversa com Fernando. Sabia que teria de lidar com o castigo, sua ausência, que Maurício me daria nos dias a seguir. Sabia também que de nada adiantava encher o celular dele de mensagens atrapalhadas que só fariam me humilhar. Mas mesmo assim mandei cada uma delas.
Ele as visualizava e não respondia. Estava online e agia com a indiferença de sempre. Eu me desesperava e tornava a mandar mais mensagens acreditando que a quantidade delas pudesse fazer com que ele se decidisse por responder.
Eu estava esperando o voo, de olhos no relógio e nas entradas do aeroporto. Talvez, ele viesse, como em uma daquelas cenas de filme, quando eu já tivesse perdido as esperanças.
Mas ele não fez isso. Anunciaram nosso embarque e já não era possível nem alimentar esperanças de que Maurício chegasse até mim. Coisa que, muito claramente, ele não estava nem um pouco inclinado a fazer.
Continua...