segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Vencedor - Capítulo 9

O Vencedor 

Capítulo 9


Por duas noites seguidas eu tinha estado com Maurício. Para minha mais absoluta alegria. E confesso que escrevi “estado” por falta de um nome mais preciso que dar. Não posso dizer que tinha ficado com ele, estava abaixo disso, estava abaixo até de “transado”. Não sei qual era o nome pro que fizemos, mas, talvez, “servir” – uma palavra que acabou de me ocorrer – dê conta do recado aqui. Por duas noites seguidas eu tinha servido Maurício. Pra, então, ficar mais nem sei quantas sem nem o cheiro dele. Bem, sem nem o cheiro não literalmente, infelizmente; ou vai ver não.

Ele parecia simplesmente numa boa sem dar conta da minha existência, me procurar ou mesmo aparecer diante de mim. Não acho que o fazia pra me torturar. Parei de pensar assim porque caí na real e vi que mesmo me torturar seria de um esforço muito grande para despender com gente que, de fato, não tinha importância. Era só que ele não estava nem aí e tinha uma vida, que não me incluía, pra levar e ser.

Eu virava as noites fantasiando sons dele se aproximando. Feito um louco correndo à porta para escutar. Em pé no hall tentado discernir passos pela escada. Me revirando na cama quando o ouvia chegar em casa, subir ou vir à cozinha. Morria e já não suportava, mas minha casca se mantinha em pé, fotossintetizando a esperança em força. Uma força fajuta e fraca. ´

Eu não ia resistir muito mais tempo. Já se tinham ido duas semanas nessa. Não ia continuar sendo forte de não ir ao quarto dele mendigar seus pés ou suas virilhas. Eu estava doido por isso, mas resolvi adotar uma medida mais sutil. Desesperada, igual, mas um cadinho mais sutil.

Ele saiu na sexta feira, aliás, saiu em todos os outros dias; mas foi na sexta que eu resolvi agir. Depois que minha mãe foi dormir, saí do meu quarto e fiquei plantado na sala de estar assistindo TV. Ele teria de passar ali quando chegasse, seria obrigado a me ver, a lembrar de mim e, se eu tivesse alguma sorte, poderia chegar bêbado e se contentar com, nas palavras dele, a opção rápida que se oferecia fácil.

Passaram-se horas até que o barulho de carro me despertou. Eu estava com os olhos fixos, vidrados sem me dar conta de que a TV estava sintonizada no Canal do Cliente desde que eu a tinha ligado.

A porta da sala abriu e não era nenhum Maurício que chegava. Era seu João, carregando uma Sônia em pé apenas pela misericórdia divina e pela força do braço dele.

“Abel, rapaz, ajuda aqui.”

Levantei de pronto e rendi seu João.

“Deixa, eu levo ela.”

“Eu vou pra casa, então.”

“Não tá tarde, seu João? Eu forro pra mim no chão e o senhor dorme na minha cama.”

“Tudo bem. Não precisa. Eu volto logo cedo amanhã.”

“Tá bom.”

“Tchau.”

Levei Sônia escada acima como fiz muitas outras vezes.

“Você é o filho que eu queria ter, sabia?” O bafo dela não me excitava como o do filho fazia. A voz enrolava e saia com dificuldade. “Não aquele imprestável do Maurício. Nem liga pra mãe. Cadê ele? Maurício!” Gritou à porta do quarto.

“Peraí, Abel. Eu quero ver a cara dele. Cadê? Maurício.” Ela abriu a porta, mas Maurício não estava. “Tá vendo. A lá: nem tá em casa. A mãe morre e ele nem fica sabendo. Eu passei muito mal, Abel. Mas ele não tá nem aí. É igual ao pai, Abel. Igualzinho. Você não. Você é um anjo. Preferia que você fosse meu, você sabe.”

Aguentei mais meia hora dessas mentiras alcoolizadas até que Sônia desmaiou ainda reclamando de Maurício.

“Entra na fila, querida.”

Ia descendo a escada quando ouvi vozes animadas na sala.

“Abel.” Nem mais me lembrava como soava o meu nome na voz dele. “Tava fazendo o que lá em cima? Não tava me procurando, tava?” O tom era cordial e pareceria amigável se eu não soubesse que ele não me tratava assim. Devia estar fazendo tipo pra moça que estava com ele.

“Eu só fui ajudar sua mãe a subir. Ela acabou de chegar.” Ele mordiscava o lóbulo da orelha da moça exatamente como nunca fizera comigo. “Ela não está bem, fica de olho nela, você, que vai tá lá em cima.”

“E desde quando você me diz o que fazer?” O olho de basilisco arrancando meu espírito como nesses sustos que os personagens de desenho animado tomam. Ele nem piscou. Não perdeu um segundo da vergonha que desenhara no meu rosto. 

“Ah, faz um favor pra mim.” Nem sempre fica clara a natureza de um verbo no imperativo, se é de pedido ou de ordem, mas mesmo na polidez do favor-pedido, Maurício sabia deixar claro que mandava. “O que você quer beber?” Me ignorando em pé na escada.

 “Sei lá. Champanhe?” Respondeu a moça que não devia fazer ideia de que estava sendo feita de açoite bem debaixo de seu nariz bonito.

“Eu pedi a sua mãe pra pôr umas garrafas na geladeira. Leva uma pra mim. E também um balde com gelo e copos. Taça não.”

“Tá.” Eu respondi, resignado. Ele mandava e eu obedecia, era assim que funcionava, imediatamente nesta ordem.

“Boa noite.” A garota disse.

“Boa noite.” Vai se fuder.

Os dois subiram as escadas aos risos. Ele a devia estar apertando, fazendo cócegas, mordendo.

Graças a Deus que Sônia bebia. Imagina que feio seria se ele me pegasse ali na sala fazendo nada além de espera-lo.

Fiz o serviço, que não era meu, mas como ele colocou sob o pretexto de favor, ainda que tivesse ordenado, ia criar atrito se eu não levasse. Eu precisava fingir que tudo estava bem, que nem me incomodava ou seria pior. Ele ia ter noção ainda maior do quão patético eu era em relação ao que sentia por ele.

Afinal, outra vez, me vi perguntando: do que eu podia reclamar? Ele chegou na casa dele, com uma visita dele, a levou para o quarto dele e lhe daria a piroca dele. O que eu tinha com isso? Tinha direito a ir lá e reclamar da boceta que ela tinha eu não? Eu era só o criado, viado e sem boceta, a escarradeira pra quando sem opção.

Maurício abriu a porta. Usava a meia calça da garota amarrada no pescoço como uma gravata. Sorria. Um sorriso fácil e sem a maldade que eu costumava receber. Mas ele nem sequer olhou no meu olho. Ele não descia tanto, o rei. Manteve os olhos fixos no balde, o pegou:

“Eu acho que a nossa festa tá só começando.” Disse ridículo já se voltando pra dentro, a moça deu um gritinho animado e não pude ouvir mais por que o calcanhar de Maurício, empurrou a porta que bateu às suas costas e na minha cara, é claro.

Você dormiu naquela noite?

Nem eu. Fiquei mais acordado do que nunca. Não com esperança dele chegar e me chamar, o que servia de alguma alegria até. Dessa vez, roendo as unhas, revirando, me arranhando e gritando em silêncio, chorando e esperneando. Em vão. Ele não ouvia e se ouvisse, rir-se-ia.
“... fogo que arde sem se ver. Ferida que dói e não se sente...” Um perfeito idiota, esse Camões. Claro que se via, bastava que se olhasse pro meu rosto. As olheiras, escuras e fundas, os olhos tristes, pavorosos. O cabelo desgrenhado... E como tinha a cara de pau de dizer que doía sem se sentir quando tudo o que eu fazia era sentir a dor de não ter Maurício me mordendo a orelha e perguntando o que eu queria beber? Se via e se sentia, sim. Muito ao contrário do que o poema veio dizendo por todos esses séculos. Estava aqui. Enraizando tudo em mim. Fincando e ficando.

Quando apaguei já era dia claro. E foi bom dormir até tarde. Minha mãe me disse que Maurício tinha tomado café na cozinha com uma namoradinha, que ela tinha almoçado lá e que eles tinham saído e ele ainda não tinha voltado.

Estava passeando com ela. Talvez, de mãos dadas no Parque Lage, comendo algodão doce, jogando pão para os patos, pedalando na Lagoa, com sorte, caindo de helicóptero no meio da baía.
“E até quando você pretende levar essas férias?”

“Ai, dá pra deixar pelo menos sair o resultado da droga do Enem?! Não vou ser um vagabundo sustentado por você, se é disso que tem medo. Pode ficar tranquila: vou parar de ser um peso na sua vida.” Engraçado como descarregar sua raiva em quem não a causou não adianta de nada, apesar do que parece.

Saí da cozinha batendo o pé, em pirraça, e fui pro meu quarto me sentir miserável. Não demorou e dormi de novo, entre lágrimas e soluços, adormeci, cansado.
Parecia que a garota, cujo nome era Eliza, tinha se mudado para lá. Andava pra cima e pra baixo pela casa, falando no celular e se sentindo dona a dar ordens à minha mãe e, às vezes, a mim.

“Abel, querido, vamos dar uma socialzinha no sábado, mas não vou ter tempo de receber e instruir o pessoal do bufê porque tô atolada. Unha, cabelo, um monte de coisa pra fazer. Você não se incomoda em fazer isso pra mim, né?” Me disse quando eu voltava do mercado desavisado e topei com eles sentados à mesa na sala de jantar.

O rosto de Maurício ficou sério de repente. Uma frágil chama de esperança se acendeu em mim. Se aquela garota continuasse, assim, prevalecida sobre mim, ela ia virar história não demorava muito.

“Eliza, querida, Maurício não gosta que outras pessoas além dele me sejam superiores. Você não se incomoda em fazer o favor de continuar sendo vadia comigo, né?” Isso foi o que eu queria ter respondido.

“Claro que não.” Respondi com minha cara de cachorro vitimado que não queria fazer, mas que fazia mesmo assim.

“Eu faço isso.” Ele disse.

“Amor, Abel não se incomoda. Né, Abel? E você tem que cortar seu cabelo e descansar pra de noite. Não vai dar.”

“Eu já disse que faço.” O tom decisivo deu a conversa por encerrada.

Eu esperei uns instantes, queria ter certeza de que estava dispensado, e fui pro banho. Dessa vez quem ia sair, era eu.

Lembra do garoto que eu disse que pesava legumes e frutas no mercado? Aquele que meio que tinha alisado minha mão, sorrindo? Então, o turno dele terminava em uma hora e ele tinha me chamado pra sair.


Continua...

19 comentários:

  1. Por favor envia o capítulo dez ainda hoje.

    ResponderEliminar
  2. A questão é: a história está cada vez mais instigante e convidativa. Tenho, porém, que lhe dizer, meu querido: estou sofrendo com o Abel, sofrendo muito, sofrendo de verdade. Analiso também a atitude de Maurício, como é possível alguém ser assim? E a chegada dessa moça na casa, como pode? Não consigo lhe dar bem com a submissão do pobre Abel, não dá. Espero que ele se torne um dia dono de si, que ele saiba proporcionar prazer a si mesmo. (Fui eu o autor do primeiro comentário no conto 6). E.K.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bom que continua gostando.
      Num é, mininu? Foi sofrida, a coisa.
      E olha, também acho difícil compreender a cabeça dele. Agora, contando, as coisas vão meio que entrando nos trilhos, bem diferente de quando estava tudo acontecendo, uma coisa atrás da outra, confundindo. Não sei, mas sinto que tudo tá ficando mais claro na minha cabeça, agora.

      E obrigado por se identificar. Faz toda a diferença. Nunca deixe de assinar, meu caro E.K.
      Queria que todos os outros que comentam fizessem assim. Não precisa botar a cara no sol, é só pra saber quem tá falando.

      Eliminar
  3. Você escreve muito bem ! Parabéns..

    ResponderEliminar
  4. Eu não tenho esse sangue de fica calado para uma pessoa q mal chegou na casa e já quer manda... amando essa história to sofrendo junto com ele kkkk

    ResponderEliminar
  5. A história é realmente instigante, já estou ansioso para ver como isso irá acabar. Esperando a parte dez...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu estou um pouco menos ansioso hoje, mas ainda to esperando pra ver como vai acabar.

      Eliminar
  6. Realmente.Até onde esta subserviência irá parar? Se fosse um eu,já teria mandado o playboy catar coquinho há muito tempo.Mas parece que o personagem central gosta deste joguinho da vitimização.Esperando o desfecho.Parabens(Morsolix)

    ResponderEliminar
  7. Só o que faltava,agora ainda chega essa ridícula. Mas o Maurício tem todo esse jeito dele, porém acredito que ele sente alguma coisa por o Abel. Melhor conto, está de parabéns desde a escrita como a história em si.

    ResponderEliminar
  8. Publica logo o cap 10, estou morrendo de anciedade!!!!

    ResponderEliminar
  9. Nossa! Parabéns. Estou amando esse conto, torço pelo Abel e acredito que o Maurício goste dele e não tem coragem pra assumir um relacionamento gay.
    Parabéns, fico aguardando o próximo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado. Fico muito feliz.
      Também já pensei que fosse assim, até perguntei se era isso o que fazia ele ser tão cruel uma vez, mas ele disse: "Você acha que eu sou preso a esses valorizinhos idiotas?"
      Então, não acho que era isso.

      Eliminar
  10. Me reconstruindo depois desse terrremoto de emoções, descobertas e minino tomara que o carinha do Supermercado tem dado em algo kkk. W.R.

    ResponderEliminar
  11. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  12. Sempre tem a namoradinha otaria, aff. @L

    ResponderEliminar