sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Vencedor - Capítulo 12

O Vencedor 

Capítulo 12


Antes de começar este capítulo, peço que ponha "Keep me hangin on" pra tocar (e na versão do The Glee Cast, por favor!) porque era exatamente isso o que eu estava fazendo, trajando uniforme imaginário de líder de torcida e cantando a plenos pulmões de frente pro espelho atrás da porta do meu minúsculo quarto.  

E se isso te faz pensar que eu estou querendo causar aquele ar de filme americano te dizendo o que ouvir enquanto lê minha história, você tem toda razão. Mas preciso deixar claro que isso não é meramente um recurso criado agora pra tornar este relato pop. Eu estava fazendo isso já naquele janeiro de 2014, ainda sem o relato, mas já com a tentativa de deixar a vida mais legal.   

Não se pode culpar um menino gay de dezessete anos por fazer isso (e nem ele mesmo, com vinte e umpor sentir vergonha de tê-lo feito e vir se justificando!). Ninguém podia me culpar por querer dar à minha vida cara de filme com personagens femininas fortes que dão a volta por cima, mudam o visual e se encaixam perfeitamente em si mesmas desde então. Era o mundo no qual eu acreditava. E tinha sempre uma música impactante nessas horas. 

Ah, e você bem sabe que se tinha uma coisa de que eu precisava, na vida, era de um bom punhado de Girl Power, R-E-S-P-E-C-T!, e um bocado de Maurício no teto solar de uma limusine branca com flores e me chamando de Vivian – escolhi deixar o guarda-chuva de forase for realmente preciso simularmos uma espada, opto pelo próprio pau dele em riste. Já dava conta do recado. Gelo de Ned Stark perdia em tamanho, meu bem.  

E como das duas coisas só me restava Girl Power, como você já sabe, era com isso que eu ia me virar.  Até que me dava forças, juro. Era como uma terapia.  

Assim, desde que eu tinha voltado da cozinha por cima da carne seca, todo cheio de mim, fiquei repassando a cena, como eu gostava de fazer em tudo o que envolvia o Lorde Voldemort da minha vida. A situação toda tinha passado logo depois dele me surpreender dublando as Spice. Tudo conectado, não? Eu estava forte, vinha da Elza soltando sua trança porque não queria mais ter vergonha da maravilha que era, estava dançando no meu quarto e depois tomando sorvete e subindo pelas tamancas, ou melhor, na plataforma alta 

Viu?, eu estava forte, não meramente pelo poder superficial da ideia de uma música dançante fazendo as vezes de trilha sonora numa cena babadeira. Eu estava forte porque estava munido do que era meu no mundo. Do que eu sabia, do que gostava e vinha deixando de lado ("Me Deixando de Lado ou O Foda-se Que Eu Gostava de Dizer Pra Mim Mesmo" - o novo livro de Abel Cavalcante. Em breve nas melhores penitenciárias do Brasil.) em nome de esperar por um cara que não estava nem aí pra mim. Que cagava na minha cabeça e só não o fazia literalmente, acho, porque não tinha este fetiche graças a Deus. Porque se curtisse, teria feito e eu teria estado bem embaixo. Me convencendo de que estava feliz, me convencendo de que eu também tinha aquela tara porque só assim ia poder me encarar no espelho depois de ter feito. 

Tá vendo? Como assim?! Como eu tinha me permitido cair nessa? Carry Bradshow tinha sido minha mãe de leite! René Zellweger tinha posto o amor abaixo diante dos meus olhos. Eu já tinha escolhido "vodca e Chaka Khan"! Já tinha visto o filme da Tina Turner, o da Mia Thermopolis¹ e "Ela é o Diabo"! Não tinha condições de me deixar passar por aquilo. E nem necessidade! Eu era instruídoum iniciado.  

Engraçado como a gente fica burro e esquece de tudo o que nos montou antes, tudo o que conhecemos, o que nos trouxe até aqui... Esquecemos de tudo isso, de toda a nossa força, quando estamos cegos de amor. Ou doença. Você deve ter pensado.  

Eu tinha me esquecido de "Express Yourself". De "Express Yourself"! Vê? O nível da burrice a que a gente chega quando morre de amores por quem  tem ruína a oferecer?  A lição já estava dada. Sua Majestade, a rainha, já tinha feito este pronunciamento antes ainda de eu nascer; e eu tinha a cara de pau de cagar no seu ensino. Tinha a cara de pau de me contentar com as migalhas, cuspidas e mijo! que caiam e pingavam no meu chão de "second best". "...never enoughYou do much betterbabyon your own!" 

Não. Para! Eu tinha que parar.  

Tudo estava sendo Maurício demais e nenhum Abel. Estava lácoitado, esquecido e jogado. Quem ele era, o que amava, o que sabia...  Suas trincheiras, abandonadas porque tinha resolvido não guerrear. Mas minha armadura estava tinindo, agora, e minhas armas, prontas, se não para o ataque, para a defesa, pelo menos. 

Por isso é que eu gritava, terminando de me arrumar, perguntando a Maurício por que ele não agia feito um homem e me libertava de uma vez.  

"Why don't you be a man about it And set me free Now you don't care a thing about me You're just using me Go onget out, get out of my life And let me sleep at night (please!)
Cause you don't really love me You just keep me hanginon  
ohoh-on ohoh-on ohoh-on"²  

Uma borrifada de perfume atrás de cada orelha e um beijo tedesco pro espelho porque eu estava de saída. Tinha que ir ali comprar um jiló.   

"Estou de saída e não me espere pra jantar."  

"Como é que é? Volta aqui." Minha mãe mandou eu voltar sem nem que eu tivesse me mexido. "Você tá pensando que é quem?" Ela tinha um ar de que estava achando aquilo muito divertido.  

"Só vou sair com um amigo. Fui ao cinema com ele ontem, eu te disse."  

"Ah, o menino ali do mercado?"  

"Ele mesmo."  

"Hum. E aí?"  

"Ih, não sei. Calma! A gente só tá se conhecendo."  

"Se ele é quem eu tô lembrando é bem bonito. E bonzinho também."  

"Deve ser ele mesmo. 

"Sônia quer que você compre roupa com ela amanhã."  

"Sério?" Ui, adorava isso. Sônia, cafona toda vida – dinheiro não é tudo –, contava comigo pra se vestir direito e acabava se empolgando e comprava um monte de roupa pra mim também. Aí, estava. O momento do meu filme em que ia tocar "Vogue" e eu ia aparecer em várias tomadas com vários looks diferentes. Um beijo.  

"Ai, nem queria.  mesmo precisando."  

"Ela quer sair logo cedo."  

"Tá bom. Deixa eu ir."  

"Não fica até tarde na rua, hein." Dei um beijo no rosto dela e fui embora pela porta da cozinha. 

"Moço tem jiló?" Fernando sorriu cheio de surpresa virando pra mim.  

"Tava perdendo a esperança já. Só falta vinte minutos pra mim ir embora." 

"E porque você acha que eu escolhi vir só agora?"  

"Seu jiló." 

Ele tirou do canto, junto à balança, um saco transparente com uns seis ou sete jilós bem verdinhos e durinhos. Como minha mãe disse que tinha de ser.   

 "Já vou ficar livre pra você.Ele disse pesando umas bananas que um garoto tinha trazido. 

Olhei sedusente, ou achando que estava seduzente. Eu estava experimentando essa coisa de me sentir desejado. A gente fica mais desinibido quando está com alguém que quer a gente, né? Fica mais dono da situação. Principalmente quando não há aquela reciprocidade. Você fica mais seguro de si, mas ao mesmo tempo, é chato porque você se reconhece no outro. E o pior, reconhece o Maurício que existe dentro de você. Cruzes! Eu não era assim.  

"Não vou ficar aqui te atrapalhando. Vou pagar isso e te espero lá fora. 

"Fica ali no Atendimento ao Cliente, tem um banco lá."  

"Tá bom."  

Como eu tomei, sem querer, o corredor de vinhos em meu caminho para o caixa, achei de pegar uma garrafa e também um saca-rolhas porque eu não sou burro."  

Fernando veio sem aquele uniforme, tinha tomado banho e estava todo cheirosinho com seu sorriso de covinhas que iam se escondendo pela barba.  

"O que você quer fazer hoje?"  

"Qualquer coisa que não gaste dinheiro." Respondi. "A gente pode sentar aqui na praia mesmo e ficar lá tomando isso. Você deixa seu carro aqui, pode?"  

"Hum, já tem tudo pensado. 

"Já, só falta você."  

"Só acho melhor trocar essa calça por uma bermuda."  

"Sim, pelo amor de Deus. Tá muito quente."  

"Vamo ali. Eu tenho uma no carro. E acho que tenho uma toalha também, pra gente sentar.  
O sol já tinha ido quando chegamos à praia. Obrigado, Senhor. Obrigado. Mas ainda tinha muita gente curtindo por lá. Sentamos na toalha dos Vingadores de Fernando e ele abriu o vinho porque eu sou menininha demais pra isso e não posso, com licença.  

"Ué, já saiu." Fernando disse quando respondi que esperava o resultado do Enem pra saber meus planos pro ano.  

"Oi? Não. Só em três de fevereiro."  

"Não, Abel. Três de janeiro. Minha prima fez e já viu o resultado. Ela passou, até. Já até se inscreveu no Sisu. Tá esperando. 

"Como assim?" Peguei meu celular.  

"912.57." Eu disse liberando a tensão num sorriso largo. Eu não fazia ideia de que era capaz.  

"Caramba!" Fernando tinha os olhos arregalados.  

"Meu Deus! O Sisu!"  

"Calma é até amanhã de noite." Conferi no Google. Ele estava certo. 

"Ai, gente, onde eu tava com a cabeça?" Eu bem sabia em quem eu estava com a cabeça esse tempo todo. "Ai, Fernando, obrigado. Um anjo de Deus, você."  

E o beijei. Não só por isso. O beijei por tudo. Porque era bom, era gostoso, porque ele era lindo e tinha o hálito delicioso, porque me fazia bem e gostava de estar comigo, porque eu me sentia grato pela alegria que ele estava ajudando a trazer pros meus dias. E também porque eu estava com fogo.  

Era estranho, no entanto, ficar lá e ver Fernando inaugurando um pedestal pra mim e rendendo louvores.  Ele me achava muita areia pro seu caminhão, ele dizia. Era um pouco chato pra falar a verdade. Se ver nesse lado da coisa. Peraí! Então era por isso que Maurício era tão cruel comigo? Porque eu o endeusavaNah. Acho que não. Ele bem gostava disso, de ser deus nas minhas preces. Mas chega! 

"Menos Maurício e mais Abel!" Protestei. E dava também pra colocar um pouquinho mais de Fernando porque fazia bem e porque eu estava sentado entre suas pernas e ele tinha minha orelha inteira dentro da boca 

Me virei e o beijei, assim, meio de lado, era gostoso isso. Pena que o beijo dele estava com gosto de Flower, ao invés do gosto bom que tinha sempre, mas isso era culpa minha também, né?   

Eu não queria saber de mais nada. Só queria me deixar curtir o calor de Fernando que já ia deixando minha cueca toda babada. "Você-sabe-quem" aqui e ali, me infernizando o juízo, porque bem ardia não estar com os olhos postos nele, mas eu o enxotava com o "Expelliarmus" que era o doce beijo de Fernando, o abraço de Fernando, sua mão saliente... Ia me dando uma vontade forte de convidá-lo pra dentro. 

Mas eu tinha que guardar pra Maurício. Era dele. Tinha que ser, mas por quê? Porque eu tinha decidido assim, porque eu queria que fosse assim, mas era tudo só eu, unilateral e solitárioPra que guardar? Se a pessoa pra quem eu estava guardando não fazia questão? E além do mais, eu nem tinha exatamente o que guardar pra que ele pudesse tirar. Não tem hímen no meu lado das coisas. Só mesmo a inocência e a ideia da primeira vez. E toda a minha inocência já tinha ido embora. Ele já tinha tirado de modo que "guardar minha pureza pra que Maurício tire" podia ser riscado da lista das coisas por fazer 

E eu sabia que envolvia dor e que podia ser traumatizante. Assim, Fernando parecia o cara ideal pra isso. Não pense que tivesse essa frieza. Primeiro, me veio o fogo de dar pra ele, ali mesmo na praia, depois a culpa porque meu selo era pra ser de Maurício e dele apenas, e aí sim, comecei a buscar argumentos pra me convencer a escorregar naquela rigidez que me cutucava as costas.   

problema é que ia ter que ser no carro. Mas ia ser.   

Bem, isso se ele quisesse, mas não conseguia enxergá-lo negando se eu pedisse. O problema era como pedir. Como fazer uma cara, que te olha como se você fosse um anjo ou uma princesa da Disney, saber que você quer dar pra ele?  

Eu fiquei de joelhos na areia de frente pra Fernando. E acabei sorrindo. Não sorriso femme fatale que quer devorar. Sorri porque ele era lindo e fofo – nos dois sentindo permitidos pelo português daqui. Sorri porque olhar pra ele era bom, estar com ele era bom, e gostoso. Não era só fofo, ele era sexy, caliente, sabe. Me envolvia com seu jeito malandro do bem, inteiramente do bem. Eu ia dar pra ele. Vinho deixa a gente lascivo, né? Ia dar bastante.  

E, pra isso, eu precisava mudar o tom do meu sorriso.  

"Fernando." Lhe beijei o rosto e cheguei, manso ao seu ouvido. "Quer conhecer um lugar? Aonde ninguém foi ainda?" E voltei pra olhar pra ele.  

"Quero. Muito."  

Num instante, já estávamos no banco de trás de carro dele estacionado, numa rua tranquila. Nus da cintura pra baixo. Fernando sentado e eu, em seu colo com os joelhos no banco.  
Ele pincelava a glande molhada de saliva na porta da minha entrada, aquilo era inebriante, fazia o meu corpo todo vibrar e beijando. Eu não aguentava mais, queria senti-lo dentro logo. Peguei a camisinha e dei pra ele, que, habilidoso, vestiu do jeito que estávamos.  

"Você controla. Vou ficar aqui quietinho."  

Curioso que instinto diz direitinho o que fazer, ? Segurei o pau dele pela base e o posicionei bem onde eu queria e fiquei rebolando e rebolando, laceando, admitindo a cabecinha pra dentro e fazendo careta de dor logo em seguida. 

"Calma. Para um pouco." Ele disse suspirando e me beijou. "Devagar. Eu não tô com pressa."  

Eu também não estava, mas estava com fome, queria tê-lo todo dentro logo, de uma vez e escorreguei o meu cu, dolorosa e gulosamente pela extensão de seu falo. Fiquei lá como que confortavelmente sentado, de boa, beijando Fernando. Doía, mas até que ia doendo menos.  
Fernando não se desligou de mim nem por um momento. Não saiu do meu interior, nem dos meus olhos, exceto quando estava ocupado em não sair da minha boca. A mão, me segurava, firme, mas não apertava. Ele estava todo ali e eu não achava vez de estar em nenhum outro lugar a não ser aquele em que Fernando pudesse estar dentro.  

Eu subia e descia, rebolando e tragando Fernando, que gemia e se contorcia e me beijava e dizia coisas bonitas e me masturbava. Eu estava tão em êxtase que nem quis impedir sua mão quando percebi que, se continuasse, eu explodiria. Deixei e explodi contraindo meu anel em volta dele que, gemendo e mordiscando meu rosto, me puxou pra si pela cintura e veio dentro de mim.  

"Eu quero você." Ele disse meigo. O beijei em resposta.  

Não era justo dizer o que ele queria ouvir só pra manter minha imagem de bonzinho. O beijei mais e mais até que pudéssemos partir pra outro assunto.  

Fiquei sentado no colo dele mais um tempo até percebermos que já passava de uma de manhã e tínhamos mesmo de ir embora.  

"Não quer me contrabandear pro seu quarto?" Perguntou com o carro estacionado em frente à casa.  

"Ah, eu bem queria, mas é impossível. Moro de favor aí. É casa dos outros."  

"Eu sei. Eu entendo." Nos beijamos.  

Entrei meio que diferente, as pernas um pouco bambas ainda, mais por ter ficado de joelhos do que por ter dado pela primeira vez, mas acho que tinha uma relação. Um sentimento de vazio dentro de mim, um certo dolorimento prazeroso me acompanhava. Entrei pela cozinha  que era o meu lugar e ia tentando passar batido, nas pontas dos pés, no escuro que foi invadido pela luz da lâmpada que acendeu: 

"Isso é hora de você chegar? 

Continua...

1 – O Diário da Princesa, filme em que conheci a frase: "Ninguém pode te fazer se sentir inferior sem o seu consentimento.", de Eleanor Roosevelt.  

2 – Por que você não age como um homem 
E me liberta? 
Você não dá a mínima pra mim 
Você só está me usando 
Vá em frente, saia, saia da minha vida  
E me deixe dormir à noite (por favor!) 
Porque você não me ama de verdade 
Você só gosta de me manter na linha (no sentido de esperar, ao telefone).

8 comentários:

  1. Merecia-mos outro capítulo já que não conseguiu postar ontem... Só te peço issoooo

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  2. Tbm acho viu, merecíamos outro capítulo desse conto maravilhoso.

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  3. Aproveita que você não postou ontem e posta duas seguidas! Por favor, já comi todas as minhas unhas esperando as continuações

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  4. genteeeeee me abanem pq se continuar assim morro kkkk. Será que é o Maurício, começando a perceber que o amor nos faz mudar hábitos, atitudes e sentimentos ?! Ansiosíssimo pelo próximo capitulo hehehe W.R.

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  5. O próximo pelo amor de Deeeeus

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  6. Manda o XIII, necessitooooo

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  7. Meudeus, ainda menciona minhas series favoritas (Glee, Harry Potter e Game Of Thrones). Adorei, continue assim.

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    1. São coisas que eu gosto e estavam lá comigo enquanto eu vivi o que conto.

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